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Temos aqui uma entrevista exclusiva com um dos coprodutores executivos de “Game of Thrones”, Vince Gerardis, que está no Brasil para palestras na Campus Party. Uma delas, que será no sábado, contará com uma entrevista por live-streaming com George R.R. Martin, o autor dos livros que deram origem à série – e nós estaremos lá para comentar tudo aqui no Blog POP de Séries e TV!

ATUALIZAÇÃO: Infelizmente cometemos um erro na transcrição da entrevista. A respeito da Batalha da Torrente do Água Negra, Vince disse originalmente que o episódio é um pouco decepcionante por ter apenas sessenta minutos, não que a Batalha em si teria duração de dezesseis minutos (um erro de tradução entre “sixty” e “sixteen”). Pedimos sinceras desculpas aos leitores nacionais e internacionais pelo engano. O trecho corrigido na entrevista está em negrito.




Antes de mais nada, só temos a agradecer ao Game of Thrones BR, site de fãs que foi responsável por trazê-lo ao Brasil e que graciosamente nos ajudou a conseguir a entrevista (e que também já começou a fazer uma cobertura da vinda de Vince aqui). Vince estava cansado, com jet-lag após a longa viagem para o Brasil, mas foi extremamente simpático e de boa vontade.

 

Blog POP de Séries & TV: Bem, Sr. Gerardis, antes de mais nada, eu entendo que você representa o Grok Studio, que foi responsável pela filmografia em “Game of Thrones”, se não estou enganado (ao menos é o que o IMDB disse). Foi um desafio para um studio iniciante receber tamanha responsabilidade numa produção desse tamanho?
Vince Gerardis: Não é exatamente isso, estou envolvido na produção, não sou responsável por ela. A responsabilidade pertence a HBO, e David Benioff e Dan Weiss… e Carolyn Strauss que tem estado na HBO por vinte anos. Meu envolvimento começou com minha relação com George Martin.

POP: Entendo. Então você entrou nessa, pois você já possuía contato com George Martin. Isso veio de sua época, digo, da época dele na televisão ou à parte disso?
Vince: Bem, sou um elo de ligação… um representante de George R.R. Martin em todas as coisas de Hollywood, sejam filmes, televisão, mídias sociais, jogos, etc… e quando seu quarto livro estava prestes a ser lançado, recebi uma ligação dos editores, me informando que o livro, iria de fato, ser lançado como número 1 em todas as listas de best-sellers do mundo. E eu percebi que aquela era uma junção crítica para o marketing de sua série toda. Até aquele momento, George estava relutante em permitir a exploração dos livros porque havia ainda tanto trabalho a fazer e tantos caminhos a explorar e (alguns dizem que) ele talvez não tivesse ainda certeza de como tudo acabaria… mas nós percebemos naquele momento que os negócios se sobreporiam à parte criativa. Meu telefone começou a tocar, com executivos sênior de estúdios e assim por diante, e me dediquei a encontrar os talentos apropriados que seriam capazes de desenvolver a versão de maior qualidade de produção possível em oposição a apenas permitir pessoas que estavam se aproximando por perceberem que era uma oportunidade. Eu tenho em minha experiência que paixão pelo material, compreensão do material e uma visão sobre como criar espaços derivativos a partir de um material são frequentemente mais importantes do que o benefício estatístico que um produtor/estúdio podem ter ao obter uma propriedade.

POP: Entendo. Isso e é realmente louvável compreender que vocês tenham essa visão e a compreensão de que este trabalho pode atingir as pessoas em outro nível, se o respeito devido for dado à obra, digamos, “original”.
Vince: Sim, nós costumamos dizer que é importante encontrar parceiros que busquem manter a integridade do criador original e do trabalho subjacente. Nesse caso, quando apresentei George para David e Dan, o almoço durou cinco horas e percebi que, em certa medida, meu trabalho estava feito.





POP: Entendo, então David e Dan são realmente os responsáveis por tudo o que vemos… nós seguimos outros blogs e espaços na internet que têm bons contatos com eles… você acredita, como leitor da história, que ela servia ao meio audiovisual? Ou foi difícil, realmente difícil – sabemos que muito trabalho foi feito, mas ainda assim você acha que, de certo modo, já era provável que isso aconteceria? Que a obra seria transposta para um meio audiovisual?
Vince: A estrutura dos livros que George utilizou, acredito eu, é em certo nível, se não um nível substancial, inspirada por seu trabalho na televisão. Por exemplo, todos nós já lemos livros em que os capítulos terminam em cliffhangers e esse mesmo modelo é usado nas telas. É um tipo de energia que é viciante para os espectadores e leitores, portanto, sim, isso já era inerente ao material subjacente. No entanto, David e Dan são altamente intelectuais e analíticos e criaram algo aqui que muito poucas pessoas já haviam visto antes. Por exemplo, quando eu li os scripts dos dez primeiros episódios, foi a primeira vez em quinze anos trabalhando com isso que não tive nenhum comentário a acrescentar.

POP: Isso é impressionante. E realmente, é um trabalho até agora praticamente sem falhas – pelo menos a maioria das pessoas está bastante encantada por “Game of Thrones” aqui no Brasil. A série foi lançada com uma diferença muito curta em relação aos episódios nos Estados Unidos, por isso as pessoas estavam de fato esperando pelas datas de lançamento dos episódios. Você esteve envolvido de alguma forma nas decisões a respeito de cortar personagens ou enredos da história, ou teria algo a respeito disso sobre o qual você poderia falar? [antes da entrevista, Vince nos avisou que não poderia entrar em alguns detalhes por conta de contratos de confidencialidade da HBO]
Vince: A HBO, como muitas companhias, utiliza uma tecnologia de software online que permite que as audições do elenco sejam vistas múltiplas vezes, por qualquer pessoa, em qualquer lugar, desde que você tenha as senhas. E essas audições foram gravadas e vistas por todos nós e comentadas múltiplas vezes.





POP: Há algum ponto na história que você, como fã ou leitor, teria feito diferentemente dos livros? Você pode falar spoilers aqui, vamos ter um aviso nessa parte… [Aviso de Spoilers à frente!]
Vince: Meu único desejo até agora, honestamente seria (além de algumas das cenas menores, que eu provavelmente poderia fazer uma lista), seria a Batalha da Torrente do Água Negra, que é um episódio da segunda temporada. Acho que é o episódio nove, é o script que George escreveu e será fantástico, mas, ao mesmo tempo, um pouco decepcionante, porque [o episódio] tem apenas sessenta minutos.

POP: Entendo. É uma batalha enorme e nós provavelmente gostaríamos de vê-la por três episódios ou algo assim.
Vince: É um excesso de enredos se encontrando.

POP: Então, veremos isso no episódio nove. Vejamos, qual foi seu episódio favorito até agora, dos dez que já foram lançados?
Vince: Não tenho certeza se posso responder isso, seria clichê dizer “ver a cabeça de Sean ser cortada fora”, mas tendo vistos essa cena antes nas filmagens diárias, não sentia o impacto total daquele episódio. Então, não estou certo. Honestamente, não tenho uma resposta para essa pergunta.

POP: Ok. Bem, considerando a segunda temporada que vêm aí, tivemos muito respeito dos leitores do livro para com os espectadores na primeira temporada. A maioria das pessoas não sabia como tudo se desenrolaria e, no final, as pessoas honestamente não sabiam o que aconteceria e ficaram genuinamente surpresas. Você acha que algo desse tipo deve acontecer na segunda temporada, considerando que há grandes momentos? Você acha que os leitores ainda respeitarão os espectadores ou vão soltar spoilers para as pessoas que não leram os livros ainda?
Vince: Você está perguntando se os leitores prévios vão fazer spoilers sobre como o show será?

POP: Sim, exato.
Vince: Acho que é inevitável, mas não acho que isso teria um impacto negativo no programa. Eu vi o suficiente da segunda temporada para saber que ela entrega o que promete.

POP: Certo. Bom, na verdade eu tinha mais algumas perguntas mas elas não se aplicam mais [por conta dos limites do que Vince poderia dizer]. Há uma, que é um pouco difícil que você saiba, mas… você acredita que poderiam haver spin-offs de “Game of Thrones”, como as história de “The Hedge Knight” com Egg e Duncan (série de romances situada cem anos antes da história contada em “Game of Thrones”)? Nós sabemos que a HBO normalmente não faz esse tipo de coisa, mas, podemos ter esperança?
Vince: Isso foi discutido, processado extensivamente e, em última instância, pelo menos por enquanto, é que ninguém pretende fazê-lo. Eu não creio que anteciparemos nada por pelo menos mais dois anos. É um trabalho enorme fazer um programa de alta qualidade desse tipo – os números, o dinheiro que é gasto e o número de pessoas empregadas fazendo esse programa… não apenas a história ou as roupas ou, você sabe, a importância do enredo e do material subjacente, mas a produção como um todo. Para conseguir fazer algo deste tamanho, exige-se muito tempo e foco. É muito mais do que as pessoas provavelmente podem perceber.

POP: Bem Sr. Gerardis, creio que essas seriam nossas perguntas, só posso agradecê-lo pelo seu tempo. Qual a sua impressão a respeito do Brasil até agora? Você já esteve aqui antes?
Vince: Cheguei hoje de manhã, estou exausto, mas o clima é incrível e a cidade é, pelo que pude ver da janela do meu hotel, algo extraordinário. Posso sentir a população, tão ocupada em suas vidas, mas também os sorrisos, a boa vontade de sorrir imediatamente nos rostos dos brasileiros, que é algo novo, eu acho, em todas as minhas viagens.




Por Álvaro Freitas