Quadrinhos sempre pareceu ser um universo de meninos, talvez seja pela enorme quantidade de protagonistas masculinos, mas quem acompanha e respira esse mundo sabe que as coisas não ficam só nisto. Estrogênio pode ser facilmente encontrado nesse meio com nomes como Mafalda, Mônica, Luluzinha, Vampira, só para citar as mais “clássicas”. Ok, todas são personagens, mas de alguns anos para cá, mulheres vêm tendo maior visibilidade nesse meio.

Assim como Beyoncé cantou em “Run the World”, as mulheres têm mostrado que, como no mundo “real”, elas também podem mandar muito bem no meio da ilustração – quadrinhos ou não – e vem conquistando cada vez mais respeito e a admiração de seus colegas. Samanta Flôor é um destes exemplos. Uma das garotas presentes no “MSP – Novos 50”, terceiro lançamento comemorativo dos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa, está no mercado há pouco mais de três anos e, entre seus trabalhos, se destacam o “Mundo de Bia”, HQ mensal para a revista “Atrevidinha”, além de projetos editoriais.

Nascida em Porto Alegre, Samanta se formou em arquitetura, mas vem trabalhando como ilustradora freelancer desde 2008. Há algum tempo se transformou em personagem e vem assinando o “Toscomics”, tirinha na qual usa seu dia a dia como inspiração principal.

Para saber um pouquinho mais sobre essa gaúcha, que vem encantando a rede mundial de computadores com suas ilustrações, conversamos com Samanta via e-mail. Ela nos contou sobre como começou a desenhar, a experiência de participar do “MSP – Novos 50”, suas inspirações e muito mais.

POP: Qual sua primeira lembrança/memória quando pensa em quadrinhos/ilustração? Como foi seu primeiro contato com esse mundo?
Samanta Flôor: foi com Maurício de Sousa e Ziraldo. Eu devorava esses gibis!

POP: Como surgiu a chance de fazer parte do “MSP Novos 50”. Como foi o convite?
Samanta: o Sidney, editor do livro, me mandou um e-mail perguntando meu telefone. Claro que eu sabia quem ele era e sabia que só podia ser sobre o “MSP”. Mandei o telefone e fiquei sentada esperando, numa pilha de ansiedade! Quando finalmente liga, ele diz “opa, desculpa, chegou gente aqui, depois te ligo de novo!” E lá vou eu esperar ainda mais ansiosa ao lado do telefone (risos)!

POP: Você chegou a postar uma tirinha sobre a experiência de ser convidada para o projeto. Como foi encará-lo e criar algo com base na obra de Maurício de Sousa?
Samanta: foi bem difícil. Era muita pressão! Minha mesmo, que fique claro, porque o projeto era muito livre. Mas era um trabalho para o meu ídolo de infância e é óbvio que não considerava nenhuma das minhas ideias boas o suficiente. Arrastei por meses até me decidir por uma delas. Claro que não fiquei totalmente satisfeita, acho que nunca ficaria! Mas gostei muito do resultado.

POP: Como foi o lançamento do livro?
Samanta: foi um dia mágico! Eu ainda não conhecia o Maurício pessoalmente. Ele é um queridão! Abraçava todos, distribuía autógrafos, sorrisos e fotos. Foi ótimo conhecer alguns dos artistas do livro, gente que eu já admirava de longe. E rever outros tantos também.

POP: Sua formação é em arquitetura, mas, desde 2008, você vem trabalhando como ilustradora. Como foi essa mudança na sua vida? Como foi ver seu trabalho e futuro se distanciando do que estudou?
Samanta: na verdade não se distanciou tanto assim. A faculdade me serviu de base e foi lá que aprendi a desenhar, a cumprir prazos, a virar noites (risos). Claro que não recomendo para ninguém fazer uma faculdade de arquitetura pra ser ilustrador, mas são trabalhos que têm a mesma base. Eu aproveitei muito essa experiência. Ainda bem, né?! Foram seis anos!

POP: Além de seu trabalho editorial e publicitário, você tem o lado autoral, como o “Toscomics”. Como foi que teve a ideia de se transformar em um personagem e começar o diário gráfico?
Samanta: foi aos poucos. Vi que era mais fácil me colocar como personagem do que criar um novo.

POP: Há dois anos você selecionou algumas das coisas que havia publicado online nesse projeto e fez uma versão impressa. Por que resolveu sair do mundo virtual e colocar as histórias no papel? Qual a resposta das pessoas quanto a esse trabalho?
Samanta: fazer um zine foi uma ótima experiência. É totalmente diferente ver o trabalho impresso. Mas é uma escolha complicada, parece que tudo que é impresso fica “pra sempre”. Diferente da internet, onde não há tanta pressão. Hoje tenho um pouquinho de vergonha do meu zine. Eu adorei quando fiz, mas hoje vejo vários errinhos, várias ideias ruins. Mas tudo bem, eu não me arrependo. Acho que o importante é fazer, sempre.

POP: Pensa em dar continuidade a esse trabalho no formato impresso?
Samanta: sim! Mas provavelmente fugindo um pouco desse formato dos “Toscomics”.

POP: Seu dia a dia costuma ser a fonte de inspiração para estas histórias. O Coffee Monster é um dos personagens que mais aparecem. Como ele nasceu?
Samanta: Foi numa noite insone, provavelmente por culpa de muito café. Achei que seria divertido um personagem em forma de café e achei que bastante gente curtiria a ideia. Quem não gosta de café, não é mesmo?

POP: O “lema” do “Toscomics” é: rir da própria cara é importante. O quanto do que vemos realmente aconteceu com você? Diria que o exercício de pegar suas experiências e colocá-las no papel é um tipo de terapia?
Samanta: tudo aconteceu. Mas a ideia é relatar de uma forma divertida, engraçada. Tudo depende do ponto de vista: muitas das coisas que eu transformei em tirinha na hora que aconteceu foram ruins ou não foram engraçadas. Mas a ideia é ver beleza e comédia em tudo. É uma coisa que eu prego para a vida. Acho que pode ser um tipo de terapia, apesar de não gostar muito dessa ideia – quem quer saber dos meus problemas, né?

POP: Há algum tempo se dizia desanimada. Li que isso teve a ver com a temida “crise dos 30”, na qual sua autoestima sofreu um bocado, mas que isso já é passado. De que maneira isso afetou seu trabalho?
Samanta: na verdade estou sempre em algum tipo de crise (risos)! Chegar aos 30 sempre causa um certo mal estar. A gente fica pensando que nessa idade já devia ter conquistado muitas coisas, estar no auge da carreira, etc. Mas é um sentimento passageiro. Afetou bastante meu trabalho, mas não sei se está claro pra quem vê e não sabe.

POP: Cornflake, o nome que adotou para seu site/blog, você tirou da música “Cornflake Girl” da cantora Tori Amos. Em seu trabalho, sempre menciona bandas e artistas. Qual sua relação com a música?
Samanta: Eu sempre trabalho ouvindo música. Depende do momento e eu sou bem eclética, fica difícil fazer uma lista.

POP: Uma pergunta difícil. Qual sua HQ favorita? E seu ilustrador/roteirista?
Samanta: Nossa, essa é difícil mesmo! Uma das minhas preferidas é “Jimmy Corrigan”, do Chris Ware. Eu adoro o trabalho de ilustração da Vera Bee. Roteirista, acho que o Neil Gaiman, mas a maioria dos meus artistas preferidos são desenhistas e roteiristas.


Por Paula M. Higa