O autor espanta o “fantasma da primeira edição” com o segundo livro de seus personagens e terá sua homenagem aos heróis da DC publicada lá fora.

O sonhador Hector e o cínico Afonso fazem sucesso há dois anos. Os dois passarinhos começaram a bater asas pela internet e ganharam as páginas do jornal carioca O Dia, ganhando o troféu HQMIX de Publicação Infantil/Juvenil de 2010. Enquanto isso, a antologia “Pequenos Heróis”, uma homenagem de artistas brasileiros a personagens icônicos da DC Comics (Batman, Superman, Mulher Maravilha, etc) será publicada lá fora. As histórias, sem diálogos, mostram crianças inspirando-se de alguma forma em algum desses personagens enquanto realizam algo edificante.

O que as duas publicações tão distintas têm em comum? Seu criador, o autor Estevão Ribeiro, de 32 anos. Natural de Vitória, ES, ele vem trabalhando com quadrinhos há 12 anos e só agora, após uma estrada que fez com que seu trabalho amadurecesse, ele recolhe os louros (nada a ver com o penoso Afonso nesse caso) do sucesso e do reconhecimento. Em entrevista ao Blog POP Nerd e Geek, ele conta que tudo isso é, na verdade, só o início de tudo para se atingir metas, como transformar esse sucesso dos quadrinistas brasileiros em regra – e não exceção.

POP: O projeto “Pequenos Heróis” era publicado em forma de minissérie lá fora. Como foi que a revista chegou a uma editora americana? Você tem mais detalhes a respeito?
Estevão Ribeiro: O Mário César, coeditor, fez o contato com o os gringos. Tentamos primeiro a TopShelf, pela qual o Mário já publicou, mas eles não estavam trabalhando com antologias na época. A 215 Ink se interessou em publicar no formato e-book, mas já tendo em vista uma edição impressa. E assim vai acontecer.

POP: “Pequenos Heróis” é uma clara homenagem aos principais personagens que fizeram ou fazem parte da Liga da Justiça. Por que logo a Liga e esses personagens? Como foi que a ideia surgiu?
Estevão: Para mim, personagens como Batman e Superman têm muito mais o perfil de heróis. Os heróis da DC Comics são mais “heroicos” que os da Marvel, por exemplo. Neste projeto, que é todo construído em cima de imagens, eu precisaria de personagens icônicos. Aí entraram os heróis da DC. Eles são os personagens reconhecidos por qualquer geração, salvo a Canário Negro e o Caçador de Marte, que, de começo, você não os reconhece, mas os outros são bem conhecidos e definidos.


POP: As histórias não possuem falas, sendo contadas apenas com imagens. Este recurso de narrativa é mais difícil do que os bons e velhos balões e diálogos?
Estevão: Acho que o recurso de não ter falas é um desafio. Estou tendo dificuldades em fazer o mesmo trabalho no segundo número por causa da abordagem menos heroica, onde você não sabe quem é o “vilão” e o “mocinho”. Não é difícil passar para o artista, mas é complicado fazermos o público entender o que queremos passar.

POP: Os artistas que participaram do livro reclamaram de alguma dificuldade relacionada a isso? Como foi a escolha dos convidados que participaram da edição?
Estevão: Os artistas estão amando a experiência, até porque uma história sem balões é um espaço para trabalhar toda a sua arte. A escolha aconteceu mesmo devido à qualidade técnica e sua simpatia com o projeto.

POP: O que você pode adiantar a respeito da segunda edição de “Pequenos Heróis” com os personagens da Marvel Comics?
Estevão: “Pequenos Heróis 2” conta com um bocado de gente, terá mais histórias que o primeiro, mas também é mais difícil de fazer pelo que foi citado antes. Os personagens são mais humanos, menos heroicos, estão sempre em fuga… Na história do Hulk, por exemplo, ele não “salva” ninguém, é apenas uma pequena fera tentando ser contida. Os dramas são mais humanos e, ao mesmo tempo, mais difíceis de destacar.

POP: Quem deverá participar de “Pequenos Heróis 2”?
Estevão: Temos Mário César (que escreve uma “história bônus do Demolidor” e é o único que tem participação com roteiro e arte). Além do Mário, temos:

  • Emerson Lopes, desenhando a história referente ao Wolverine;
  • Pablo Mayer, a do Motoqueiro Fantasma;
  • Davi Calil, com Namor;
  • Jaum, fazendo o Quarteto;
  • Raphael Salimena, com o Hulk;
  • Dandi, com a Vampira;
  • Leo Finocchi, a do Homem de Ferro;
  • Vitor Cafaggi, com Homem-Aranha;
  • Ric Milk, com Thor;
  • E um convidado internacional fazendo os X-men (ainda estamos confirmando…).

POP: Falando d’Os Passarinhos, você acaba de lançar “Os Passarinhos e Outros Bichos”, superando o “fantasma da primeira edição”. Foi mais difícil lançar este volume?
Estevão: O fantasma da primeira edição existe. Muitos trabalhos não conseguem passar para o segundo número, seja por falta de apoio ou mesmo planejamento estratégico mesmo. Às vezes o próprio autor não tem conteúdo para mais números ou ainda lança um material em produção, mas na maior parte das vezes é falta mesmo de grana ou de editora para bancar outros números, ou insistir na aposta.

O segundo volume de “Os Passarinhos” já estava certo para sair assim que vimos os bons números do primeiro. A primeira edição foi “repartida”; eu deveria pagar 1/3, a gráfica que me apoiou pagava outro tanto e a Balão, iniciando no mercado naquele momento, bancou 1/3 mais revisão e toda burocracia para lançar um livro.

Já a segunda edição saiu integralmente por eles, por ser uma aposta e pelas conquistas dos personagens: a primeira edição está esgotada, a reimpressão está praticamente toda na rua. Precisaríamos imprimir mais para atender novos pedidos ou eventos. Aliás, 65 exemplares levados para o FIQ acabaram no sábado, um dia antes do término do evento. E estamos falando de um álbum publicado em janeiro de 2010, com quase dois anos de circulação pela internet e eventos.


POP: Ainda podemos encontrar o primeiro livro à venda?
Estevão: O primeiro livro pode ser encontrado no site da Balão e na lojinha dos Passarinhos, além do site da Saraiva, onde tem a versão impressa e digital.

POP: Desde o primeiro volume, os Passarinhos passaram a ser publicados no jornal O Dia e as pessoas passaram a conhecer mais os personagens a ponto de você dar autógrafos na última FIQ – eles já viraram até bonecos de pelúcia! Você se sente como parte daquele seleto grupo de autores de quadrinhos que conquistou público no Brasil?
Estevão: Eu gostaria muito de pensar assim, mas não posso me iludir, dizendo que conquistei meu público. Gosto de pensar que consegui um voto de confiança para continuar trabalhando. O troféu HQMIX de Publicação Infantil/Juvenil de 2010 foi o ponto que queria chegar há um bom tempo. Este prêmio foi desejado por mim há dez anos, desde que soube da existência dele por uma revista da “Turma da Mônica” (em 1992). Eu decidi que queria escrever quadrinhos, trabalhar no ramo e, é claro, ser reconhecido por isso.

Mas ainda falta chegar ao público não especializado, sabe? Os meus leitores ainda são mais escritores, desenhistas em potencial e simpatizantes do trabalho do quadrinhista nacional.

Ainda falta chegar ao leitor, o público de fato.

POP: Você trabalha com quadrinhos há 12 anos. “Os Passarinhos” são seus primeiros personagens? Como foi esse início?
Estevão: Não… “Os Passarinhos”, ironicamente, é minha incursão mais recente e a que tem dado mais resultado.

Meu primeiro personagem foi o Tristão em 1999, que eu sempre achei que seria minha “galinha dos ovos de ouro”, mas no final foi uma boa experiência. O personagem era publicado no jornal Notícia Agora/ES e depois ganhou uma edição nacional pela editora Escala e duas edições independentes. Em 2010, foi feito um curta metragem pelos alunos de Cinema de uma faculdade de Piracicaba, com o roteiro de minha autoria. Eu ainda estou à procura de uma possibilidade de fazer uma história legal, com um final digno para o personagem.

Entre uma tentativa de emplacar o Tristão, publiquei os álbuns “Contos Tristes e Pequenos Heróis”, além dos romances “Enquanto Ele Estava Morto”, “A Corrente” e a tirinha “Os Passarinhos”, é claro.


POP: Conversando com André Diniz, ele conta que os quadrinhos brasileiros ganham cada vez mais destaques por serem autorais, que competem nas prateleiras com outros livros, não com outros quadrinhos. Seu trabalho, no entanto, é bem calcado na linguagem pura dos quadrinhos, como as tirinhas de “Os Passarinhos” e a homenagem a ícones do gênero super-heróis em “Pequenos Heróis”, que será publicado lá fora. Estariam os quadrinhos autorais brasileiros prontos para conquistarem o mundo ou o estrondoso sucesso de “Daytripper” em 2011 foi um fenômeno que não se repetirá?
Estevão: Meus votos são que mais trabalhos ganhem notoriedade lá fora e nas prateleiras, até para que nosso quadrinho não tenha apenas uma cara ou poucas caras. Moon e Bá abriram caminho para o autoral no mercado americano, mas o caminho para os artistas brasileiros já está mais do que pavimentado lá fora.

A novidade está em levar projetos fechados, como o próprio “Daytripper” e iniciativas como a “Inkshot”, uma obra totalmente brasileira editada pelo Hector Lima, que publicará nada menos que 50 autores brasileiros, entre roteiristas e artistas, do qual eu também participo. Mas profissionais como Wander Antunes e outros nomes publicam na Europa, outros estão prestes a publicar na Coreia…

Não podemos tratar os artistas vencedores como exceção, mas sim como regra. Se o Diniz hoje vive de seu trabalho, publicando pelas maiores editoras do país, se a “Turma da Mônica Jovem” vende mais quadrinhos que a Marvel e se “Daytripper” é uma das obras mais vendidas dos EUA temos que encarar isso como uma meta para cada profissional, não como um sucesso isolado.

Desde o começo, “Pequenos Heróis” foi pensado para ser publicado lá fora. Conseguimos, assim como meu romance “A Corrente”, que será publicado na Itália. A próxima meta é conseguir transformar este romance num filme. É um desafio? Não. É uma meta.

POP: Que conselhos e dicas você dá àqueles que querem se iniciar como autores da nona arte no Brasil e viver dela?
Estevão: Esteja pronto para escrever sobre tudo. No começo, na maior parte das vezes, sempre prevalece a vontade do cliente, da editora. Seus projetos pessoais são apostas, investimentos, então… É estudar, escrever e ter paciência. Hoje temos mais editoras investindo em material nacional, a autopublicação não é mais tão onerosa como antes e os festivais abrem muito espaço para o quadrinho autoral. Aproveite a maré favorável e faça um material de qualidade.

Não tenha medo de cobrar pelo seu trabalho, mas lembre-se que quem te contratar é CLIENTE e vai te pedir qualidade.



Por Leonardo “Ock-Tock” Paiva