Não sou um fã de filmes de guerra, nunca fui. Não tenho nenhum motivo em especial que justifique isso, apenas não me divirto assistindo a longas deste gênero.

Claro, em toda regra existe uma exceção e no meu caso há três: “Pecados de Guerra”, “Rambo IV” e “Nascido para Matar”.

Nunca assisti “Platoon e pessoalmente, achei “Apocalypse Now” meio maçante. Mas esta é só minha opinião, não precisa concordar com ela.

“Nascido para Matar”deve ser o que eu vi mais vezes dentre os filmes de guerra que aprecio. E mesmo após todos estes anos e incontáveis vezes que o assisti, ainda não guardei o nome da maioria dos personagens e sequer faço questão disso.

E no fim, acho que era justamente este o plano de Stanley Kubrick.

“Nascido para Matar” é dividido em duas partes distintas: o campo de treinamento e o campo de batalha.

Na primeira parte, conhecemos o recruta “Joker”, que se alistou nos fuzileiros navais e agora precisa sobreviver ao treinamento quase fascista imposto pelo sargento Hartman. Metódico e quase sádico, o trabalho de Hartman é quebrar o espírito de todos aqueles que estão sob seu comando e então moldar o que sobrou em máquinas de guerra.

Eis que a pressão se torna demais para o recruta “Gomer Pyle”, gorducho, lento e desengonçado, ele se torna o alvo favorito de Hartman, que não tem problemas em punir todo o pelotão por conta de suas falhas. Pyle eventualmente é espancado (em uma das cenas mais brutais do cinema) por seus colegas, o que de alguma forma, arrebenta sua mente de forma irreversível.

O treinamento se encerra com o soldado Pyle executando seu treinador, antes de explodir a própria cabeça com um tiro de rifle.

E então, logo após esta cena terrível… a ação muda para o Vietnã, e nos sentimos aliviados.

Como a guerra pode ser menos aterrorizante que o treinamento???

Bom, não me entendam errado, o conflito mostrado por Kubrick é horripilante, mas ao menos permite aos soldados serem pessoas. O treinamento os desumanizava, fazia deles meras ferramentas a mando do governo, armas, se assim preferirem.

Com exceção do recruta Gomer Pyle, não sabemos o nome de mais ninguém, apenas seus apelidos (“Joker”, “Cowboy”, “Animal Mother”). Não devemos ver pessoas no filme, apenas “coisas”, que serão usadas em campo de batalha e dispensadas no momento em que perderem seu uso. O único personagem com um nome é aquele que perde a razão, ele quebra e não consegue ser reconstruído como seu instrutor queria.

E pelo menos para mim, isso funcionou. Eu não ligo para os personagens, tampouco tenho apego por eles, nunca tive. Não me emociono com aqueles que morrem, tampouco sinto empatia pelos que sofrem. Eu que choro assistindo “Toy Story”, não ligo para homens de verdade sendo estraçalhados por rajadas de metralhadora.

No fim, acho que esta é a essência da guerra. Todos são anônimos e perdem sua importância no conflito, em um processo que ocorre desde o momento em que pisam num quartel e não termina assim que pegam um avião e voltam para casa. O horror que permeia este tipo de situação os acompanha até o fim da vida.

Pelo menos, é isso que “Nascido para Matar” simboliza para mim. Uma história em que não existem heróis ou vilões, apenas pessoas que foram transformadas em estatísticas.

Amer H.


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Jornalista profissional que tem o tamanho de um urso e argumentos quase tão bons quanto os de um.