Crítica – O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida

Diversão e ecologia para toda a família
O escritor norte-americano Dr. Seuss (Theodor Seuss Geisel), apesar de não tão famoso na literatura nacional, é considerado mundialmente um dos mais populares autores infantis de todos os tempos. Além de inúmeras adaptações de seus trabalhos, nos últimos anos as obras tem ganhado versões para as telonas com sucesso considerável, começando por “O Grinch” (2000), “O Gato” (2003), “Horton e o Mundo dos Quem” (2008) e, finalmente, “O Lorax”, que ganhou aqui no Brasil o subtítulo “Em busca da Trúfula Perdida”.
A história acompanha o garoto Ted (no original, voz de Zac Efron), que vive na cidade de Thneedville (lê-se “snidviu”), onde o ar é poluído, tudo é de plástico e O’Hare (Rob Riggle), um empresário baixote e ganancioso domina a venda de ar puro. Quando sua vizinha e interesse amoroso Audrey (Taylor Swift) lhe fala sobre árvores, inexistentes em Thneedville, Ted parte em uma jornada para encontrar a última árvore de trúfula. O único modo de descobrir como encontrá-la é ouvindo a história do triste hermitão Umavez-ildo (“Once-ler”, voz de Ed Helms), que conta como a região se tornou poluída e como conheceu o Lorax (Danny DeVito), aquele que fala pelas árvores.

Desde a primeira cena – uma perfomance musical e dançante complexa que nos mostra a cidade -, fica clara a mensagem que “O Lorax” quer nos passar. Seja na venda de ar puro, no ambiente artificial, na água radioativa ou no excesso de carros, não é difícil nem pra criançada apreciar a ironia num mundo extremamente colorido e feliz, e ao mesmo tempo errado, a caminho da destruição. A ignorância dos habitantes da cidade não fica longe do otimismo que nós mesmos já mostramos no decorrer da nossa história, mas aqui que começa a grande sacada do filme – a posição de ecologia do filme passa longe de todas as abordagens piegas que já estamos acostumados a ver.
Mesmo quando vemos o mundo fora da cidade cercada, com um céu roxo-escuro, água imunda e sem nenhum sinal de vida animal ou vegetal, ninguém está apontando dedos para o público dizendo “a culpa é sua”. Já quando conhecemos a história de Umavez-ildo, o papo sobre responsabilidade fica um pouco mais claro – quando o empresário-ermitão conta a história de sua juventude e como iniciou a exploração das árvores e do ambiente local, as culpas ficam implícitas. Especialmente porque o personagem é divertido e ganha a simpatia do público, fica mais fácil de ensinar a criançada com seus erros.

O Lorax, em si, é um homenzinho mágico com pouca magia. Mais um conselheiro do que uma força da natureza, sua lição de bom senso e responsabilidade faz muito mais sentido do que a maioria dos documentários sobre a poluição mundial ou desenhos clássicos: ao colocar a responsabilidade na mão de Umavez-ildo (e indiretamente, a Ted), ele diz ao público que resta a eles fazer alguma coisa. Mesmo que a “culpa” não seja nossa, a “responsabilidade” é. Não temos que olhar de longe, como nos documentários, ou esperar a força salvadora de um Capitão Planeta. Não é nenhuma surpresa que o próprio Lorax não é o protagonista da história.
Tendo ou não lição de moral, Lorax também chama a atenção pela qualidade e diversão. Além dos momentos musicais, o filme conta com um elenco de personagens bizarros e um timing ótimo para piadas que todos conseguem curtir, independentemente da idade. Seja na avó de Ted, Norma (Betty White), nos ótimos diálogos de Umavez-ildo e o Lorax, no pseudo-romance de Ted e Audrey, nos habitantes de Thneedville ou nos animais da floresta que habitam as histórias do ancião, é difícil passar cinco minutos sem ter pelo menos um sorriso. Os animais, aliás, ganham o centro das atenção com um grupo de ursos, pássaros estranhos e os favoritos do público, peixes cantores que, por alguma razão, também conseguem andar em terra firme. Aqui, o expertise da equipe (que também trabalhou em “Meu Malvado Favorito”, 2010), fica claro, sendo que várias vezes as piadas não-verbais acabam sendo as melhores.

A animação aproveita também da qualidade técnica ao máximo, apostando em complexidade de cenas e detalhes que adicionam muito ao mundo do Lorax. É difícil não passar o filme sem querer explorar o campo de trúfulas felpudas. O andamento e edição também lucram muito – acompanhamos duas linhas de história intercaladas, mas é fácil até para os pequenos entenderem. A montagem também lucra, conseguindo colocar muito em cerca de 90 minutos de filme, deixando, apesar disso, um gosto de quero-mais.
Vale lembrar, como habitualmente no mercado de cinema nacional, não conseguimos acompanhar nas telonas a versão original, com um largo elenco de estrelas dublando os personagens. Ainda assim, a equipe brasileira mostra muita desenvoltura e habilidade, sendo que a adaptação não deixa margem para reclamação, mesmo para as canções que, claro, tiveram que ser adaptadas. Diversão garantida para todas as idades, sem medo de más adaptações ou lições de moral entediantes.

Rodrigo Ortiz
Escritor, leitor compulsivo, jornalista, publicitário e, é claro, nerd de carteirinha. Rodrigo Ortiz é fanático por todas as artes, mas principalmente por tudo o que contém letras, inclusive em línguas estrangeiras.















