De secundário a protagonista, sem perder o estilo.

Ele conquistou a todos com seu sotaque, sua habilidade na espada, suas tiradas ou simplesmente com sua arma secreta – seu olhar irresistível – mas nem todos colocaram fé quando a DreamWorks anunciou que o Gato de Botas teria seu próprio filme, longe de Shrek, Fiona, Burro e os outros personagens que o ajudaram a se consagrar. Provavelmente o(a) leitor(a) deve saber que o Gato aqui não é apenas o do conto de fadas, mas sim a versão espanholada do personagem que apareceu pela primeira vez em “Shrek 2″ (2004). Um dos pontos fortes do segundo filme, tornou-se um personagem recorrente nos próximos, além de integrar a turma do ogro Shrek em especiais e curtas-metragem.

Mas é aí que estava a dúvida: o Gato nunca havia sido o ponto central de nenhuma das tramas. Teria ele força o suficiente para cativar como o protagonista? A discussão dividiu os fãs, mas parecia improvável que o resultado fosse bom – depois de curtas e produções paralelas razoáveis, além do plano original, no início da concepção do longa de ser um lançamento direto para DVD, não soava muito animador ter um spin-off do tipo. Mas a decisão da produção já era certa, ainda mais com a dica no final do último “volume” de Shrek.

Mas vamos lá, hora de entender do que se trata a aventura: antes de ter chegado à Terra Muito, Muito Distante como um assassino de ogros (e mais tarde, companheiro de aventuras de um), o Gato de Botas (voz de Antonio Banderas) era um aventureiro fora da lei, um procurado honrável que se recusava a roubar de pobres e conquistador de mulheres por onde passava. Certo dia, ele descobre que o casal de foras da lei Jack (Billy Bob Thornton) e Jill (Amy Sedaris) conseguiram os famosos feijões mágicos, a chave para conseguir os lendários ovos de ouro do castelo do Gigante. Porém, logo ele descobre que a ladra Kitty Pata-Mansa (Salma Hayek) e seu antigo amigo, o desleal Humpty-Dumpty (Zach Galifianakis) também estão atrás do prêmio. Apesar dos problemas e traições de Humpty no passado, Gato se junta à dupla em busca da fortuna, mas este é apenas o começo de seus problemas.

Como fazer um filme de um personagem que se originou em Shrek, sem depender do Shrek? A resposta que os criadores encontraram foi simples – basta passar longe do ogro. Para começar, a história se passa antes de qualquer um dos filmes da franquia e em uma Espanha fictícia, sem sequer mencionar outros personagens já conhecidos. Ao mesmo tempo, é fácil reconhecer que se trata do mesmo universo – além do próprio Gato como personagem dos contos de fadas, vemos Humpty-Dumpty, referências “a João e o Pé-de-Feijão”, juntamente de secundários de histórias menos familiares aos brasileiros, como Jack and Jill e “Little Boy Blue”.

O grande mérito, porém, foi o desenvolvimento de uma personalidade própria. Partindo de um mundo já estabelecido antes, em que criaturas fantásticas andam por aí entre humanos, gatos falam e buscas a tesouros impossíveis são levadas a sério, vemos como o lado do Gato tem características próprias. Abandonamos os gramados e florestas por um ambiente desértico e cidadezinhas que parecem saídas dos filmes de Zorro, repletas de personagens com sotaques hispânicos. Na hora da ação, a correria e a velocidade são ainda maiores do que em Shrek, muito graças aos heróis felinos e a engenhocas do brilhante Humpty. Com ou sem comédia, esses momentos capturam a atenção do público.

Já o humor, apesar de apostar em estilos já vistos, inova com sua própria fórmula. O protagonista já garante dúzias de interações únicas, seja por sua personalidade egocêntrica e narcisista ou pelo simples fato de ser um gato, tomando leite no bar ou se distraindo com reflexos brilhantes em paredes. Aqui, vale a ideia do humor para todas as idades: enquanto na hora da ação e pancadaria, o humor “pateta” agrada a todos, temos tiradas e diálogos com duplos sentidos que agradarão os adultos, sem tirar a graça para a criançada. Por vezes, o contexto é o que gera o riso, seja pelo absurdo ou pelo inesperado (um dos momentos por volta da metade do filme é o exemplo perfeito disso, mas não estragaremos a surpresa para ninguém).

Os personagens, mesmo não tão inspirados como poderiam (é difícil superar figuras como o Burro de Shrek), garantem boa parte da diversão. Mais do que uma repetição do que já foi visto, Banderas dá um show como o Gato e o enredo trabalha excelentemente sua história, mostrando lados que não conhecíamos do personagem, garantindo que, na saída, gostaremos ainda mais do baixinho felpudo. Hayek deu vida à sedutora Kitty como poucas poderiam, apesar da personagem não ser o cúmulo da originalidade, e Galifianakis está em seu melhor na comédia – o ovo ambulante esbanja bizarrice e tem alguns dos melhores momentos da produção e, apesar de oscilar dentro do gosto da plateia por sua moralidade estranha, acaba sendo inesquecível.

Perfeito para todas as idades, seja você fã de Shrek ou não. O Gato funciona muito bem sozinho e não é difícil imaginar sequências explorando novas aventuras antes (ou quem sabe depois?) da Terra Muito, Muito Distante. O 3D está agradável, adicionando ao filme sem usos exagerados e sem causar dores de cabeça. Se tiver a opção, não tenha medo de gastar a mais no ingresso.