Crítica: Espelho, Espelho Meu

Tropeçando nos próprios pés
Ultimamente, o cinema parece interessado em reciclar, ou ainda, renovar. Além dos inúmeros remakes e sequências dos últimos anos (com mais por vir), os Contos de Fadas também estão em voga. Todos tem uma proposta em comum: a partir de uma história clássica, adicionar ou modificar elementos para renová-la. Isso aconteceu em 2011 com lançamentos como “Fera” ou “A Garota da Capa Vermelha”, e teoricamente virá a acontecer em 2013 com “Maleficent”, longa estrelando Angelina Jolie que colocará a história da “Bela Adormecida” do ponto-de-vista da vilã, a bruxa Malévola.
2012, porém, parece ser o ano da Branca de Neve. Além do anúncio de “Branca de Neve e o Caçador”, prometendo uma heroína participativa em uma aventura cheia de luta, contávamos com o anúncio de “Espelho, Espelho Meu” que, com uma veia cômica mais ativa, colocaria a Rainha do conto nos holofotes, cheia de esquisitices e manias, encarnada por ninguém menos que Julia Roberts. Mas será que há muito do que rir?

“Espelho, Espelho Meu” conta a história de Branca de Neve (Lily Collins), uma garota bela e pura, princesa de um abastado reino. Com a morte de sua mãe no parto, o rei passa a criá-la sozinho, até que um dia se casa novamente e passa a governar com a nova Rainha (Julia Roberts). Um dia, o rei desaparece e a Rainha toma o comando passando a isolar Branca de Neve e governar com mão de ferro e egoísmo. A chegada de um príncipe estrangeiro (Armie Hammer), porém, muda tudo – a Rainha vê nele a chance de salvar as finanças do reino, arruinadas pelos seus exageros, portanto decide se livrar da Princesa, tirando-a de vez de seu caminho. Porém, quando Branca de Neve é enviada para sua morte, acaba conhecendo sete anões ladrões que passam a ajudá-la em sua missão de retomar seu reino.
Dado mais a anacronismos tecnológicos do que a magias, “Espelho, Espelho Meu” começa chamando atenção pela ambientação e caracterização. Com uma imensa coleção de fantasias, vestidos e roupas exageradamente luxuosos, é divertido notar a inventividade envolvida em momentos que alternam entre o belo e o ridículo – o próprio Príncipe, em certo momento, não se aguenta com os largos bordados e mangas de uma camisa e os rasga. A cada cena, também não é estranho notarmos engenhocas como pernas-de-pau hidráulicas dos Anões ou até patins para gelo utilizados pelos servos reais.

Os belos cenários são um show à parte, seja aproveitando de sets montados ou computação gráfica. Aliás, esse aspecto não poupou gastos, desde a bela sequência inicial, em animação, até efeitos especiais de cena, como as magias do Espelho Mágico da Rainha, que, aliás, é um bizarro cômodo em que ela entra pela superfície do espelho. A câmera dada a planos criativos e tomadas aéreas só aproveita todo o bom acabamento do filme.
Infelizmente, a parte problemática é grande demais para que os efeitos, cenários, figurino ou câmera salvem a produção: para começar, o próprio enredo deixa a desejar. Mesmo aumentado o foco na rainha, tornando Branca de Neve impetuosa e independente, assim como injetando grandes doses de personalidade nos Sete Anões, a criatividade é pouca e acaba minada por construções duvidosas de roteiro, andamento atrapalhado e largas dificuldades humorísticas.

A principal confusão começa no ponto que, no final das contas, o que parece ser um filme sobre a Rainha é realmente um filme sobre a Branca de Neve. Sem dúvida, o foco na personagem de Julia Roberts deixa a desejar, especialmente depois de toda a promessa do trailer, e mesmo o título mencionando o espelho parece um exagero. A própria Branca de Neve, como suposta protagonista, também sofre pela simplicidade, não estando muito longe de muitas heroínas de capa-e-espada que já surgiram nas telonas. Os anões, cada um com um tipo de personalidade e esquisitice distinta, são comparativamente muito mais interessantes do que a moça.
Quem sabe o humor salve o longa? Se essa era sua esperança, procure outra produção. Apesar da ótima atuação de Roberts, a Rainha acaba sub-aproveitada, sendo que suas tiradas e sarcasmo acabam cansativas com o tempo. Enquanto a abordagem esperada seria fazer o público adorá-la apesar de tudo, é mais fácil desgostar dela como qualquer outro vilão tradicional. A maior parte das piadas acaba caindo em tiradas, trocadilhos, trapalhadas e pancadaria pastelão, mais infantis, especialmente com os anões ou com Brighton (Nathan Lane), o ajudante puxa-saco da Rainha, que tirando sorrisos ou risinhos da platéia, não gera muito mais reação da platéia.

Branca de Neve e o Príncipe até tentam, mas seus diálogos que tentam misturar humor e tensão romântica não apresentam nenhuma novidade, e as poucas tentativas de humor situacional acabam ridículas. Uma sequência com o príncipe, mais ao final do filme, chega a ser vergonhosa, e se a personagem de Roberts parece desconfortável em cena nesse momento, não é difícil de acreditar que seja a própria atriz se perguntando como fora parar naquela situação infeliz. Exageros à parte, para aqueles que esperavam um humor sarcástico mais forte, o resultado final acaba decepcionando.
É uma pena que o filme tropece tantas vezes – o potencial estava todo ali para elevá-lo a pouco mais que uma obra mediana sem muitas mudanças. Se quiser ver novamente a história de Branca de Neve, leia o livro, assista o clássico da Disney (1937), ou aguarde para “Branca de Neve e o Caçador”. Se realmente fizer questão de ver Roberts e companhia, espere o DVD.
Rodrigo Ortiz
Escritor, leitor compulsivo, jornalista, publicitário e, é claro, nerd de carteirinha. Rodrigo Ortiz é fanático por todas as artes, mas principalmente por tudo o que contém letras, inclusive em línguas estrangeiras.















