O perigo está por toda a parte

“Contágio” nos mostra o surgimento de um novo vírus e como ele se espalha rapidamente pelo planeta. Não é a primeira vez que vemos um filme sobre este tema (de cabeça, me lembro de “Epidemia”) e possivelmente não será a última. O grande diferencial é a execução desta história e sua eventual evolução.

Tudo começa com Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) regressando de uma viagem de Hong Kong com uma forte tosse que ela atribuiu à gripe e exaustão. As coisas pioram um bocado quando ela chega em casa e contamina seu filho. Os dois perecem logo nos primeiros minutos da história e é aí que percebemos que a situação é muito mais alarmante do que imaginamos.

Em seguida, a história se divide entre inúmeros personagens, nenhum deles o protagonista “de fato”. Temos Mitch (Matt Damon), que é imune à doença e que, em meio a dor de perder sua família, tenta proteger sua filha sobrevivente o melhor que pode; o Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne), médico que lidera a equipe de pesquisa responsável pela criação de uma vacina; a Dra Erin Mears (Kate Winslet), que tenta descobrir a origem do vírus, e Alam Krumwiede (Jude Law), um blogueiro que ajuda a disseminar o pânico na sociedade apenas para conseguir mais acessos para seu site.

Este pode ser definido como “um filme com pessoas falando”. Não existem cenas de ação, o enredo não tem pressa em se desenrolar, não existe um militar perverso que se opõe aos médicos que desejam criar um vacina para a população (novamente, “Epidemia” me vem à mente) e há uma quantidade enorme de diálogo – muitos deles em jargões médicos, o que exige uma certa atenção do espectador.

Em seu âmago, “Contágio” disseca o quanto uma epidemia em larga escala afetaria a humanidade. É simples desta maneira e conduzido de forma muito eficiente.

O elenco funciona muito bem e todos trazem atuações de peso. Laurence Fishburne dispensa apresentações, Kate Winslet está muito longe de sua personagem romântica e trágica de “Titanic” e Matt Damon (que está tão musculoso que parece vestir uma geladeira debaixo da camiseta) tem um charme simples, sem nenhum glamour, de um homem que foi pego em uma situação além de seu controle.

Verdade seja dita, de todos os que vemos no longa, Damon é aquele com o qual o público terá mais facilidade em se identificar. Em meio ao caos, ele toma decisões que nem sequer cogitaria em tempos de paz simplesmente para proteger aquilo que restou de sua família. É impossível não nos apegarmos a este homem que sequer teve tempo de chorar a morte da esposa e tem que enfrentar uma fila quilométrica em meio à neve, procurando receber rações do exército em uma área em quarentena para que sua filha tenha o que comer.

Aliás, nenhum personagem está a salvo. Não importa quem seja ou o que faça, todos estão à mercê desta nova e horrível doença. Um vírus não seleciona quem infectará e isso apenas torna tudo muito mais aterrorizante.

Grande parte da tensão do filme vem de uma reflexão do mundo em que vivemos hoje. Há desinfetantes e álcool em muitos dos restaurantes modernos, pois germes e vírus podem estar em qualquer lugar. “Contágio” cria um ambiente em que toda essa higienização e prevenção não adianta de nada e o número de vítimas aumenta a cada hora.

É difícil não pensar no assunto ao entrar em um banheiro público após duas horas com o longa.

Talvez este seja justamente seu trunfo, a capacidade de nos aterrorizar com coisas comuns do dia a dia, as quais não damos nenhuma atenção normalmente.

“Contágio” é um bom suspense justamente por mexer com algo que é muito real para nós. A quase histeria causada pelo vírus H1N1, que sequer clamou tantas vítimas quanto muitos pensam (aparentemente, não matou mais do que uma gripe comum), ainda está presente na mente das pessoas. E presenciar o caos e a desumanização da sociedade diante de uma epidemia letal, chega a ser tão assustador quanto nossa impotência para lidar com um ser microscópico contra o qual não temos defesa.

Este não é um filme para todos, com certeza. Mesmo assim, aqueles que apreciam suspense enraizado na realidade certamente gostarão muito do ambiente temível que Steven Soderbergh criou.

por Amer H.

Redação


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