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On 6 de janeiro de 2014
Last modified:13 de janeiro de 2014

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Como eu disse na reportagem sobre a coletiva de imprensa de “Confissões de Adolescente” – o novo filme nacional dirigido por Daniel Filho e Cris D’Amato -, toda a história começou como uma série de diários.

Uma coleção de textos de observações pessoais da atriz Maria Mariana sobre sua própria adolescência foram adaptados em uma peça de teatro nos anos 90, que deu origem a uma série de TV em 1994, que inspirou uma peça de teatro em 2009, até (ufa!) chegar ao filme, que será lançado em todo o país neste dia 10 de janeiro.

É  admirável que alguém tenha conseguido extrair, de diários pessoais, anos e anos de material com o qual diversas gerações tenham conseguido se identificar,e os roteiristas e diretores de “Confissões de Adolescente” se saíram mais do que bem ao adaptar, para uma geração de internet e redes sociais, uma história que já  vem sendo contada há duas décadas.

Ajuda, claro, que os problemas enfrentados por adolescentes não tenham mudado tanto. Acompanhando quatro irmãs de classe média do Rio de Janeiro – Tina, Bianca, Alice e Karina  -, “Confissões de Adolescente” retrata uma série de dificuldades reais e ritos de passagem típicos de jovens do ensino fundamental, colegial e até faculdade.

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O filme traz vários pontos de vista a respeito do que é ser jovem e descobrir a própria sexualidade, lidar com problemas de autoestima, aceitação e bullying, auto descoberta, amizade e amor.

Quem ainda é adolescente vai ver uma série de problemas e questões do seu cotidiano retratados com (relativa) honestidade e bom humor. Os mais velhos, por outro lado, vão gostar do filme pela nostalgia.

Eu digo isso, não apenas por conta daqueles que vão assistir querendo lembrar da série, mas pelo sentimento que o filme evoca, de fazer a gente sentir saudade da adolescência em si – de experimentar certas coisas novas e de enxergar milhões de possibilidades em tudo.

Mesmo que você tenha odiado sua adolescência (meu caso), é aquele período em que existe um certo equilíbrio entre segurança e independência: você está começando a ter responsabilidade para cometer e assumir os próprios erros, mas ainda pode contar com uma dose maior de apoio e proteção dos pais, caso aconteça alguma coisa.

E o filme consegue capturar com perfeição a essência dessa fase da vida.

Isso me leva, no entanto, à maior crítica que eu tenho ao filme: essa “essência do que é ser adolescente”- como eu acabo de descrever e como “Confissões” retrata – é uma idealização. Sim, a adolescência é cheia de descobertas, mas -como qualquer momento da vida – muita coisa pode dar terrivelmente errado e ter consequências graves e não é todo mundo que tem a possibilidade de contar com esse apoio da família.

Por isso eu digo que a honestidade de “Confissões de Adolescente” é relativa.

O filme tem o grande mérito de não ser maniqueísta e retratar diferentes lados de um problema; temos um exemplo claro disso na forma como a história mostra a questão do bullying:  pelo lado de quem faz e de quem sofre, sem vitimizar ou vilanizar ninguém.

O que impede o filme de ser tão honesto quanto gostaria, é o fato de a história suavizar as consequências de algumas questões, preferindo mostrar essa visão mais idealizada da adolescência.

Vou dar um exemplo: uma das protagonistas, que fez sexo pela primeira vez, descobre que engravidou. O filme, por várias cenas, dá a isso o peso dramático esperado: é um evento enorme que, independente da decisão do que fazer a respeito, vai mudar a vida dos envolvidos.

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É um peso, é difícil, é complicado e… é rapidamente resolvido, em uma cena que o público sequer presencia.

Depois de muita tensão e dúvida da parte da personagem a respeito de como lidar e contar para o pai sobre a situação, tudo que temos como resultado é uma não-resolução: a menina decide ir com o namorado contar para o pai, a cena não é mostrada, mas ouvimos sua reação cômica à notícia. Fim.

Dá a impressão de que algo que seria um problema sério na vida real meio que “acabou em pizza”, no filme – fica implícito que “ah, vai acabar tudo bem”.

Claro que não tem o menor problema um filme querer ser mais leve e não tratar tudo como drama o tempo todo – “Juno”, por exemplo, fez um excelente trabalho em extrair uma história cômica e divertida de uma gravidez na adolescência.

O que fica estranho em “Confissões” é a forma como o filme trata a questão como algo mais sério e parece mudar de ideia no meio do caminho e encerrar o assunto com uma piada. É um problema que acontece em diversas histórias da trama e acaba fazendo com que o filme seja mais “Malhação” e menos o retrato sincero dos problemas da adolescência que ele se dispõe a ser.

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Nada disso, claro, quer dizer que eu não tenha gostado do longa. Eu posso reclamar de ele ter alguns problemas na hora de equilibrar o engraçado e o dramático, mas quando o roteiro acerta no humor (o que acontece com alguma frequência), é de fazer o público rir alto no cinema.

Para dar apenas o exemplo mais impressionante: eu até agora não sei como, mas eles conseguiram fazer dar certo uma cena em que uma personagem, para tentar tornar mais fácil sua primeira relação sexual, tenta fantasiar atores como Caio Castro e Thiago Lacerda, no lugar do seu namorado.

E o filme mostra isso acontecendo: nós presenciamos um bizarro momento íntimo entre Thiago Lacerda (vale lembrar; um ator de 35 anos) e uma personagem menor de idade. Parece extremamente errado e estranho, quando eu descrevo aqui, mas na hora, você não consegue nem pensar nessas objeções porque a cena é, do começo ao fim, muito engraçada.

Além dos acertos no senso de humor, o filme tem diversos outros méritos: a trilha sonora (composta na maior parte de músicas originais) é delicada e sabe ditar o tom de cada cena; as atuações são, de modo geral, naturais e convincentes.

Pode não ser um filme perfeito e ele pode embelezar e idealizar demais a ideia de ser adolescente, mas, se você estiver procurando um filme divertido, que trata adolescentes como seres pensantes e consegue falar de maneira ágil e dinâmica sobre vários assuntos atuais, que fazem parte da vida de quem é jovem, “Confissões de Adolescente” é tudo que você está pedindo e mais um pouco.