A importância de belas histórias

Todos nós temos histórias. Belas, horríveis, tristes, felizes, engraçadas ou banais, todas elas contam alguma coisa e representam algo para nós. A humanidade funciona a partir de histórias, seja em suas conversas, ou em filmes e livros, ou em suas religiões. A própria Fé nos coloca acreditando em certas histórias, e é exatamente isso que “As Aventuras de Pi” (“Life of Pi”) nos conta – sobre histórias e fé.

Piscine Molitor Patel, ou simplesmente Pi (Irrfan Khan) é um professor universitário, cuja história – descrita como algo que faz as pessoas acreditarem em Deus – interessou um escritor (Rafe Spall). Pi narra sua aventura começando pela sua infância (Pi criança interpretado por Gautam Belur e depois Ayush Tandon), como filho do dono de um zoológico na Índia. Quando se torna um rapaz (Suraj Sharma) e sua família se vê com problemas financeiros, decidem partir para o Canadá e vender os animais. O navio em que viajavam sofre um naufrágio, e os únicos sobreviventes são Pi e alguns animais, incluindo o perigoso tigre de bengala conhecido como Richard Parker. A dupla passa a sobreviver no mar, em meses de solidão e dificuldade em que passam a aprender a conviver em meio a circunstâncias inacreditáveis

É difícil falar sobre Deus e Fé. Em primeiro lugar, existe a falta de paciência ou tolerância dos dois lados – aqueles que não se interessam pelo assunto, mas também aqueles que se interessam, mas não suportam ver sua fé sendo questionada. Felizmente, “As Aventuras de Pi” consegue falar sobre a experiência religiosa sem ser tendencioso demais para qualquer um dos lados, abrindo uma oportunidade de reflexão sobre a humanidade até para os ateus mais ferrenhos.

A obra, baseada no livro de mesmo nome escrito por Yann Martel (edição nacional pela Editora Nova Fronteira), mistura desde o início conceitos de crença e como histórias nos revelam coisas e muitas vezes “conversam” mais conosco do que a própria racionalidade. O próprio Pi, além de sua história repleta de casos absurdos (seu nome, por exemplo, seria originado por uma piscina, e seu apelido também tem uma aventura própria), em sua infância conta com uma formação religiosa baseada em contos e histórias em quadrinhos.

Utilizar um personagem hindu foi uma ótima escolha: a cultura da Índia é intimamente ligada com suas figuras religiosas, sendo que desde cedo vemos Pi aprendendo sobre Vishnu e outros deuses por histórias. O jovem Pi não vê problemas em adicionar novas religiões ao seu repertório, também acreditando em Jesus Cristo e em Alá. Mas antes da discussão entrar no campo de sacrilégio, o que pesa mais é como essas histórias dão significado à experiência.

A própria aventura de Pi, cheia de impossibilidades belas e emocionantes (ilhas canibais, peixes voadores e outras tantas dificuldades e feitos inacreditáveis) é uma grande metáfora da fé e experiência religiosa. Enquanto o Pi adulto nos conta sua vida, como um tipo de Forrest Gump (1994) indiano, temos uma experiência que em si é um exemplo de como esse efeito ocorre.

E que experiência! O filme usa e abusa de efeitos de primeira, para fazer cenários inesquecíveis e dar vida a animais tão realistas que muitas vezes é difícil diferenciar o que é computadorizado e quais são os bichos de verdade. Ang Lee dá vida ao cenário marinho, muitas vezes sem variação, trabalhando dinâmicas de câmera interessantes, além de um belo trabalho de iluminação. Espere ficar boquiaberto(a) com os belíssimos pores-do-sol, animais incríveis e cenas fantásticas. Aqueles que já viram o trailer devem se lembrar, por exemplo, da belíssima cena em que o mar calmo reflete o céu como um espelho – esta é só uma de uma coleção de obras de arte cinematográficas.

Saindo dos efeitos e outros aspectos técnicos, só há elogios para a atuação, em especial ao trabalho de Suraj Sharma. Tanto na felicidade quanto no sofrimento, Sharma envolve rapidamente a platéia em seu drama e suas dificuldades com o tigre Richard Parker. O esforço com o animal, aliás, também deve ter sido imenso, e resulta em cenas fantásticas e muita integração entre os dois protagonistas.

Já o andamento do filme pode não agradar todos – a dinâmica de sobrevivência e sofrimento de Pi tem seus momentos mais lentos, especialmente após o início mais movimentado, e ainda que o assunto não se esgote, em especial com as metáforas misturadas por toda a produção, pode ser que os mais impacientes se cansem.

Se você não quiser ver “As Aventuras de Pi” por qualquer significado implícito ou discussão teológica, não tem problema – a aventura toda é fantástica e interessante o suficiente para agradar a todos, sem falar que a classificação é Livre. Ou seja, pode levar a criançada sem medo: a violência que existe nunca é excessiva, e apesar de cenas tristes, os pequenos irão encontrar diversão com as belezas e os animais.

O próprio Pi deixa uma idéia interessante, nesta história sobre histórias, que serve também como uma lição sobre o próprio mundo do cinema: “Se aconteceu, por que tem que significar alguma coisa?” Ou seja, a experiência não é diminuída se não significar nada, ou se você optar por não querer analisar.