Suspense com coisas cotidianas

Você já usou um caixa automático durante a noite? É um momento de total vulnerabilidade, onde você está praticamente dentro de um aquário, não pode ver quem está do lado de fora e qualquer um que quiser, pode atacá-lo.

O filme “Armadilha” transforma esta situação enervante do dia-a-dia, em algo muito mais aterrorizante. Um verdadeiro achado quando pensamos em filmes de suspense e terror dos dias atuais.

Após uma festa de Natal no escritório, David (Brian Geraghty) leva sua paquera Emily (Alice Eve) e seu camarada chatão, Corey (Josh Peck) de carro até em casa. Corey, sendo o mala que é, insiste em parar para comer, mas como não tem dinheiro, resolve passar em um caixa automático. Os três entram no caixa e quando decidem voltar ao veículo, deparam-se com um sujeito estranho do lado de fora.

O estranho não fala nada, nem se move. Ele é grande e usa muito agasalho, o que impede que sua identidade seja vista. Os três amigos não sabem o que esperar do cara, até que o veem matar a sangue frio um homem que passeava pacificamente com o cachorro alí perto.

Inicia-se então uma verdadeira guerra dos nervos. Do lado de fora o maníaco impassível, tentando abrir caminho para dentro do caixa automático, enquanto as três vítimas, aprisionadas em sua jaula de vidro, tentam entender os motivos do louco e o que podem fazer para se salvar, antes de congelarem até a morte.

A história acontece neste ambiente apenas e é justamente o que a torna tão aflitiva. A sensação de impotência diante de alguém que parece movido apenas pelo sadismo e o quão fácil seria para isso acontecer a qualquer um de nós, é o que cria um ligação entre o público e os personagens. Ficamos com medo por eles e queremos que fiquem bem… de outra forma, percebemos que na mesma situação, durariamos tão pouco quanto eles.

O elenco trabalha muito bem. Geraghty é desajeitado quando fala com o alvo de seu afeto, tem medo de aproximar-se dela e parece o tempo todo tentar encontrar as palavras certas para cortejá-la. Enquanto isso, Alice é gentil e diverte-se de forma inocente com a falta de jeito que o rapaz tem ao tentar impressioná-la.

É muito fácil criar afeto por estes personagens, pois encontram-se em uma situação muito comum. Ambos gostam um do outro e não sabem direito como expressar isso. Eles abrem-se e mostram-se vulneráveis não apenas eentre eles, mas para o público também. Todos já estivemos nessa situação, em que não queremos errar com a pessoa querida e é muito fácil sorrir para os dois e torcer para que a paquera dê certo. Ambos tornam-se amigos do espectador, o que aumenta exponencialmente o terror que sentimos quando os dois estão em perigo.

Josh… bem, é o típico amigo mala. Todos já tivemos um e lembramos de todos os apuros em que ele nos enfiou. É fácil desgostar dele no começo, mas aos poucos o rapaz torna-se mais cativante, exatamente como os amigos chatões que tivemos ao longo da vida.

O trio tem química. Eles parecem realmente colegas de trabalho e amigos, mas acima de tudo, pessoas comuns que acabam em uma situação extraordinária. É graças ao trabalho de atuação deles que o enredo torna-se verossímil.

O maniaco por sua vez, é quase um monstro moderno do cinema. Ele não possui um rosto, voz ou motivação, ele simplesmente existe como um obstáculo na vida dos protagonistas. A desumanização do personagem apenas o torna mais assustador e seu rosto oculto nos faz crer que ele pode ser qualquer pessoa. No fundo, o vilão do filme é apenas um ser humano, não uma entidade sobenatural ou monstro das profundezas, mas um homem qualquer que parece guiado por pura e simples maldade.

Algo mais assustador que qualquer Freddy Krueger ou Dracula.

A narrativa do filme é adequada. Ela não tem pressa em acontecer, mas também não se torna lenta ao ponto de ser maçante. A tensão cresce a cada momento, com cada tentativa frustrada de fuga, cada ação nova do maníaco e com a irritabilidade dos três protagonistas crescendo.

Em uma época onde inúmeros filmes ultrapassam a casa das duas horas de duração (nem sempre realmente precisando disso), “Armadilha” chama atenção por ser relativamente curto. Mas em momento algum parece que o diretor David Brooks deixou algo de lado. O filme dura exatamente o tanto que precisa e consegue nos contar uma história inteira neste tempo.

Uma missão cumprida com esplendor, de uma maneira que mais longas deveriam fazer.

“Armadilha” cria um ambiente novo para o cinema de suspense e terror. Lugares comuns como caixas automáticos podem ser ambientes de pavor puro, contanto que exista um ser abominável o suficiente para “assombrá-lo”. Aqui existe o potencial para uma franquia de se causar frio na espinha dos corajosos que se atreverem a assistir este longa.

Espero apenas que o brilhantismo deste filme não acabe se perdendo, caso criem dezenas de continuações do mesmo. “Jogos Mortais” sofreu muito com as sequências em demasia que vieram.

Amer H.


facebooktwittergoogle plus

Jornalista profissional que tem o tamanho de um urso e argumentos quase tão bons quanto os de um.