Crítica: Aqui é o Meu Lugar

Um Road Movie distraído
Primeira produção em língua inglesa do italiano Paolo Sorrentino, “Aqui é o Meu Lugar” (“This Must Be The Place”, 2011) chegou ao grande circuito no Brasil com um atraso que já acompanhou outras produções igualmente incomuns.
Em “Aqui é o Meu Lugar”, acompanhamos o roqueiro milionário aposentado Cheyenne (Sean Penn). Excêntrico, de movimentos lentos, voz baixa e aparência bizarra, ele passa seus dias no marasmo, longe do glamour que sua vida já teve, dividindo o tempo entre a vida caseira com a esposa Jane (Frances McDormand), compras e passeios com sua jovem fã e amiga Mary (Eve Hewson), conversas com seus poucos amigos restantes ou remoendo os erros de seu passado. Quando descobre que seu pai se aproxima da morte, Cheyenne viaja a Nova York para vê-lo depois de 30 anos, mas chega tarde demais. Lá, porém, ele descobre que seu pai havia passado as últimas décadas procurando por todo país um oficial alemão nazista que o havia humilhado, em Auschwitz, anos antes. Munido dos diários do pai, Cheyenne parte em uma jornada pelos Estados Unidos para localizar e confrontar o vilão, mesmo sem saber com certeza se ele está mesmo vivo.

Este é um daqueles filmes que, por um bom tempo enquanto assistimos, nos perguntamos qual é sua razão de ser. Conforme a história progride, essa resposta fica um pouco mais clara, mas logo passa a deixar de importar. Se me permitem o lugar-comum, chegamos em um ponto que o objetivo não é mais o final da jornada, mas ela mesma… o que é bom, mas nem sempre.
Acompanhar Cheyenne é uma experiência e tanto e diverte pelo próprio absurdo. Sean Penn dá vida maravilhosamente a uma figura afeminada e exótica, seja pela maquiagem ou pelos seus gestos lentos e decrépitos. Um cinquentão com o rosto esbranquiçado de maquiagem, lábios sempre com batom vermelho e uma cabeleira revolta, negra. Sua aparência já conta a história de quem fez de tudo (exceto, ironicamente, fumar cigarros). Chega a ser incômodo, no primeiro momento, ver esse homem que confundiria ou assustaria qualquer um de nós se o encontrássemos na vida real. Ao mesmo tempo, ele é terrivelmente familiar e plausível: basta olhar para qualquer rock star envelhecido. De fato, já foi confirmado que a aparência de Cheyenne foi baseada em Robert Smith, vocalista do The Cure – e, convenhamos, de fato não está muito longe.

Mas é exatamente pela sua estranheza que até o final do filme amamos Cheyenne. Cheio de manias como carregar malas de carrinho para todos os lado, tomar refrigerantes coloridos de canudinho, assoprar suas mechas de cabelo, cada gesto de Cheyenne consegue ser bizarro. O mais interessante, porém, é entender durante a história como o roqueiro chegou a ser o que é. Quase paralisado no tédio que sua vida se tornou, o que em um primeiro momento parece uma falta de propósito mostra ter raízes muito mais profundas em um remorso sem fim, que passa a permear todas suas ações durante o filme. A viagem para cumprir o objetivo do pai se torna uma viagem para que Cheyenne se descubra e consiga mudar e abandonar o passado, ou ao menos algo para superar o que sente.
Inicialmente, vemos que a “paralisia” da vida de Cheyenne existe também em quase todos a seu redor, como com a mãe de Mary (Olwen Fouéré), esperando um filho que partiu sem notícias e nunca mais voltou. Em sua viagem pelos EUA no melhor estilo Road Movie, Cheyenne encontra uma série de figuras interessantes, cada uma mudando um pouco sua vida e percurso, ao mesmo tempo que ele as modifica. Misturando auto-conhecimento e humor, nos vemos aprendendo tanto quanto, senão mais que o próprio protagonista, que entre os diálogos extremamente bem trabalhados, nos deixa pequenas lições que muitos filmes inteiros não conseguiram passar, mas que, como boa parte da experiência, podem não ser interessantes para muitos.

Por outro lado, enquanto um filme do tipo pede algum tipo de catarse ou momento de revelação, podemos passar por ele todo sem que notemos qualquer coisa. Na prática, esse momento existe, com um clímax propriamente dito, mas no geral é uma grande e lenta catarse. Uma iluminação com pilhas fracas, bem ao ritmo de Cheyenne, que consegue surpreender, mas que muitos podem não gostar.
O caminho do protagonista, cheio de encontros, permite que ele e o público reflitam sobre diversas questões – o filme fala sobre culpa, responsabilidade, pertencimento, vingança, família e tantos outros assuntos, incluindo tristeza, amor, tatuagens e malas de carrinho – mas muitas dessas reflexões ficam incompletas ou parecem não ter lugar na experiência toda. Mesmo nos conflitos principais da trama, de Cheyenne ou das pessoas mais próximas a ele, como Mary e sua família, ou o romântico perdedor Desmond (Sam Keeley) que a corteja, pontas soltas não faltam.

Com a presença do velho nazista e a menção a Auschwitz, é impossível que a trama não entre no assunto do Holocausto. Felizmente a abordagem evita dramatizar esse ponto, já que o próprio Cheyenne é quase que completamente alheio ao assunto e entra de maneira consideravelmente complacente na jornada. Nós somos lembrados das atrocidades, mas em meio à viagem reina um certo pragmatismo em boa parte do tempo. Os únicos pontos de maior envolvimento ficam no “caça-nazistas” Mordecai Midler (Judd Hirsch) e no vilão. Mas de fato, com seu ritmo inconstante como as conversas de Cheyenne, muitas vezes esquecemos que o objetivo era caçar o alemão, já que o sofrimento do próprio herói parece não se identificar em boa parte do processo.
Tendo um roqueiro como protagonista, e inspirado na música de mesmo nome da banda Talking Heads, “Aqui é o Meu Lugar” (Claro que a canção é “This Must Be the Place”) não poderia deixar de falar sobre música. Entre referências e menções ao showbiz e ao mundo do rock, a música faz parte da história presencialmente nas cenas ou na ótima trilha sonora (contendo a música do título, claro). David Byrne, líder do grupo Talking Heads, também tem uma ótima participação como ele mesmo, o que só ajuda para adicionar à mística de rockstar histórico de Cheyenne.
Interessante, original e estiloso, um filme que fala, ainda que de maneira vaga, de transformações e de encontrar nossos lugares na vida, ainda que isso não signifique a mesma coisa para todos. Se você não gosta de dramas, ainda vale conferir pela atuação de Sean Penn, que garante bastante diversão.
por Rodrigo Ortiz
Rodrigo Ortiz
Escritor, leitor compulsivo, jornalista, publicitário e, é claro, nerd de carteirinha. Rodrigo Ortiz é fanático por todas as artes, mas principalmente por tudo o que contém letras, inclusive em línguas estrangeiras.















