A magia do cinema e dos sonhos

Apesar do lançamento tardio – com o nome de “Hugo” no lançamento original, estreou nos EUA em novembro de 2011 – “A Invenção de Hugo Cabret” surgiu no cinema nacional bem à tempo da cerimônia do Oscar. O “timing” foi extremamente bem-vindo para atrair o público para atestar se as 11 indicações são de fato merecidas. E, de fato, a entrada do diretor Martin Scorsese no mundo do 3D (sem falar do mundo das narrativas mais “inocentes”) não poderia ter sido melhor, para delírio de seus incontáveis fãs.

Baseado no livro de mesmo nome (edição nacional pela SM Editora), a aventura de Hugo ganhou o cinema com uma força digna da obra original, que se destaca pela mistura de estilos e formatos, adicionando elementos de ilustração, quadrinhos e animação às páginas escritas.

Tudo começa na Paris dos anos 1930, onde o órfão Hugo Cabret (Asa Butterfield) vive entre as paredes de uma grande estação de trem, mantendo o funcionamento do relógios do local, enquanto passa os dias a escapar do cruel e incansável inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), que quer enviá-lo a um orfanato. Entre fugas e trabalho, Hugo tem um segredo – um autômato movido a peças de relógio que seu pai havia lhe deixado. Conforme tenta consertar a máquina, seu caminho se cruza com o fabricante de brinquedos Georges (Ben Kingsley) e sua afilhada Isabelle (Chloë Grace Moretz). A garota, ao saber sobre o autômato, passa a ajudar Hugo em sua aventura, e descobrir com ele, entre livros e filmes, que há muito mais por trás do boneco do que qualquer um poderia pensar.

Paris é um local romântico. Os anos 30, então, são há décadas sonhados por multidões, seja pela sua estética, sua moda, hábitos ou pelas suas possibilidades, sendo também uma das grandes eras para o cinema mundial. Emprestando dessa mágica, mais a aparência de quase-sonho das luzes da cidade, torres de relógio e engrenagens douradas ou cor de cobre, Scorsese soube como ninguém pintar com sonhos ainda mais belos.

O mundo de Hugo é ao mesmo tempo vasto e limitado, pequeno e infinito – apesar da aventura de passar em Paris, vemos boa parte da ação no pequeno universo da estação, com pessoas indiferentes indo e vindo, porém pequenas felicidades, romances e dramas acontecendo entre os funcionários, comerciantes e, no caso de Hugo, moradores. Assim que o filme nos coloca na estação, não apenas nos sentimos inseridos no clima do filme, mas dentro do dia-a-dia do local.

É interessante destacar que o longa tem uma surpresa “oculta”. O amor pelo cinema que os personagens tem, que inicialmente parece ser um interesse superficial ou apenas referências estilísticas da obra, é um dos principais temas do enredo. Inclusive, um dos personagens da trama é baseado em uma figura real de suma importância para a história do cinema. Claro, há certa liberdade poética, em especial com a intervenção de Hugo na história, mas a obra tem um grande crédito como saudação e homenagem a grandes nomes e grandes feitos do passado do cinema. Não daremos detalhes, mas se você ama cinema, espere grandes (e excelentes) surpresas!

Seguindo esse clima, o elenco não poderia estar em melhor forma e melhor entrosamento. A excelente ambientação e caracterização ganha ainda mais força com os trejeitos e personalidades fortes dos principais e secundários. O jovem Asa mostra força dramática para ação e drama, ideal para um dos personagens que mais sofrem na trama. A dupla Asa x Chloë, aliás, funciona sem apelar para formulas, muito graças à competência dos jovens atores. Sacha Baron Coen, apesar de mais conhecido pelas atuações bizarras como Borat (2006) e Brüno (2009) merece destaque por mais uma de suas habituais “transfigurações” de hábitos e caras, mesmo que seu personagem seja naturalmente excêntrico.

É interessante observar o cuidado que houve na seleção do elenco, já que as semelhanças com os personagens do livro são grandes, em especial para Hugo/Asa, que figura em destaque nas ilustrações. (A propósito, depois que assistirem, pesquisem a figura histórica que evitamos mencionar aqui e digam se a semelhança do ator que o interpreta com o original não é incrível.)

Entre tomadas ousadas, takes interessantes e belas vistas, visualmente o filme é um show à parte. O “mundo” oculto de Hugo já ajuda na magia, mas as visões aéreas da Paris iluminada são melhores ainda. A propósito, aqui o 3D também foi um benefício: em sua estréia com o artifício, Scorsese criou uma experiência à prova de olhos (e espectadores) irritados, sabendo usar bem ângulos de filmagem e destacar elementos sem exageros.

Diversão para todas as idades, “A Invenção de Hugo Cabret” é um filme com um “quê” de magia, exatamente sobre essa magia que não podemos esquecer. Assista, emocione-se e se divirta!

Rodrigo Ortiz


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Escritor, leitor compulsivo, jornalista, publicitário e, é claro, nerd de carteirinha. Rodrigo Ortiz é fanático por todas as artes, mas principalmente por tudo o que contém letras, inclusive em línguas estrangeiras.